Meu Pai...


Ele tinha lindos olhos azuis...E mãos imensas que me faziam acreditar que ele era capaz de parar o mundo inteiro com aquelas mãos protetoras...Em meio a tantas dificuldades, a sua calma, o seu recolhimento, a sua essência reservada era a bússola que traçava a minha personalidade em busca de me transformar em um ser humano melhor, mais justo e mais sereno.

 

Ele não cuspia palavras vazias simplesmente...ele observava e, na minha opinião, só falava aquilo que precisava ser dito, fosse um carinho ou uma alfinetada.

 

Por mais humano que fosse e mais sujeito que estivesse aos vícios e defeitos próprios à condição humana, foi um modelo pra mim no que se refere à como me comportar...

 

Ele não precisava me dar longas palestras sobre como agir ou me dizer para pensar antes de tomar decisões ou falar que tudo tem que ser feito com calma e capricho...as próprias ações dele eram um espelho mágico sobre a melhor forma de agir nas mais diversas situações e com ele aprendi a ser parte do que hoje chamo de eu mesma...

 

Meu pai era o maior companheiro do planeta, ainda que as pessoas achassem que era relapso, que se envolvia pouco, que não participava ativamente da minha vida...nós tínhamos um elo invisível que unia nossas almas e só nós dois sabíamos.

 

Meu pai era a melhor companhia do mundo pra compartilhar as horas, mesmo quando ele não abria a boca a não ser para rir de algo que estivesse vendo na TV, enquanto eu passava horas e horas deitada ao lado dele sem dizer palavra.

 

Ele era alto e forte e corajoso e especial, mesmo quando sua fraqueza se mostrava no mais íntimo do seu ser cansado e sofrido.

 

Ele nunca me disse para ser solidária, nunca me disse para ser honesta, nunca me disse pra ter caráter, nunca recriminou um só gesto ou palavra que eu tenha dito em toda a minha vida, mas suas atitudes silenciosas moldaram a minha alma de tal forma que eu sempre digo e repito que fui esculpida na convivência diária com ele, no gole de café compartilhado, na serenidade e paz que do olhar dele emanavam, na ausência de palavras vãs e no turbilhão de gestos de amor, de provas de amor, de olhares amorosos com os quais ele me presenteava diariamente, seja quando me dava bom dia, seja quando ele provava da minha comida, seja quando ele construía meu quarto ou arrumava o chuveiro às pressas pra que eu pudesse tomar meu banho quente.

 

Ele me ensinou muita coisa... mas mais do que todas elas, ele me ensinou a amar, a respeitar, a doar meu coração sem medo, ainda que isso me trouxesse de presente uma bela decepção, uma noite de insônia ou muitas lágrimas...

 

Hoje é meu primeiro aniversário sem a presença carnal dele na minha vida, mas eu acredito que ele continua a me fazer companhia, espiritualmente e nas lições que aprendi no nosso dia-a-dia e que jamais vou esquecer.

 

Muita coisa mudou, mas eu continuo acreditando que aquelas mãos enormes eram capaz de parar o mundo e me salvar de sofrimentos e dores porque só isso explica o tamanho da dor que eu sinto desde que ele se foi e eu fiquei aqui...




Escrito por Geneviève às 19h52
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